domingo, 9 de dezembro de 2012

No Domingo II do Tempo de Advento

Dos Sermões do Beato Guerric de Igny, abade cisterciense

«No deserto uma voz clama: Preparai as vias do Senhor!» Irmãos precisamos, antes de mais nada, de reflectir sobre a graça da solidão, sobre a beatitude do deserto que desde o princípio da era da salvação mereceu ser consagrada ao repouso dos santos. Claro que o deserto foi santificado para nós, pela voz do profeta, pela voz daquele que clamava no deserto, que lá pregava e praticava um baptismo de penitência. Antes dele, já os maiores profetas tinham tido a solidão por amiga, como auxiliar do Espírito. Ainda assim, uma graça de santificação incomparavelmente maior ficou ligada a esse lugar quando Jesus sucedeu a João (Mt 4,1).


Por sua vez, antes de pregar aos penitentes, Jesus pensou em preparar um lugar para os receber. Foi ao deserto para consagrar uma vida nova nesse local renovado [...], não tanto para Si próprio como para aqueles que iriam viver depois d'Ele no deserto. Se, portanto, te fixaste no deserto, fica lá, para aí esperares Aquele que te salvará da pusilanimidade de espírito e da tempestade. [...] Mais maravilhosamente que a multidão que O seguiu, o Senhor saciará a tua sede, a ti que O seguiste (Mc 6,34ss.). [...]


Quando começares a achar que Ele te abandonou, será então que, não esquecendo a Sua bondade, Ele virá consolar-te e dir-te-á: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (Jr 2,2). O Senhor fará do teu deserto um paraíso de delícias; e tu proclamarás, como o profeta, que lhe foi dada a glória do Líbano, a beleza do Carmelo e do Sarião (Is 35,2). [...] Então, da tua alma saciada brotará um hino de louvor: «Dêem graças ao Senhor pelo Seu amor e pelas Suas maravilhas em favor dos homens. Pois Ele deu de beber aos que tinham sede e matou a fome aos famintos» (Sl 107,8-9). 

in evangelhoquotidiano.org

sábado, 8 de dezembro de 2012

A Restauração e a Imaculada Conceição



O início de Dezembro, é marcado por trazer à memória da nobre nação portuguesa dois dias de grande relevo para a história deste Povo-Nação. O primeiro dia de Dezembro recorda-nos a Restauração da Independência, em 1640, e a chegada ao trono de D. João IV, depois de 60 anos de domínio da coroa espanhola.
            Associado ao dia 01 de Dezembro e a todo o movimento da Restauração está o dia 08 de Dezembro, momento em que não só recordamos a coroação de Nossa Senhora, sob o título da Imaculada Conceição, pelo então rei de Portugal, D. João IV, como também meditamos o dogma da Imaculada Conceição de Maria definido pelo papa Pio IX, em 1854.
            Desde os primeiros tempos da nacionalidade que os governantes portugueses têm dispensado grande atenção ao culto da Virgem Santa Maria. Atenção essa que vincula não só uma identidade cultural, mas também uma espiritualidade de um Povo, manifestada ao longo dos anos.
            A justificação, para este facto, poderá ter diversas interpretações à luz da História. O certo é que, o gesto da coroação de Nossa Senhora da Conceição, por D. João IV, na conjuntura político-social da época, é interpretado, pela ciência histórica, não só como uma expressão de Fé, como também, a busca pela legitimidade do poder quer junto do Povo português, quer perante a comunidade internacional, a começar pela Santa Sé. A este propósito diz-nos António H. de Oliveira Marques, que a Santa Sé recusou-se terminantemente a reconhecer a secessão de Portugal.[1] Na verdade, em Portugal, o clero estava dividido. Curas locais e monges humildes parece terem apoiado o duque de Bragança. Dentro das altas hierarquias já o panorama se apresentava muito diferente. Os bispos estavam irremediavelmente divididos quanto às suas tendências políticas.[2]
D. João IV, como novo monarca português não gozava por certo de uma posição invejável. Todo o seu reinado (1640-56) foi uma sucessão de desaires na diplomacia europeia e uma situação pouco próspera na economia interna, só compensados por meia dúzia de triunfos militares em Portugal que impediram uma invasão espanhola em larga escala.[3] Na verdade é errado, pensar-se que o período restauracionista português é um tempo pacifico. Em bom rigor, a este respeito António H. de Oliveira Marques revela-nos que em Junho de 1641 foi descoberta  uma conspiração contra o rei, onde participavam algumas das melhores famílias da aristocracia. Também intervieram na conspiração membros da burguesia, da alta burocracia e do alto clero. Registaram-se outras conspirações; menos ameaçadoras talvez, mas ainda assim reveladoras de certo descontentamento contra o regime.[4] Para além disto a guerra da Restauração mobilizou todos os esforços que Portugal podia depender.[5]
Como podemos perceber, Portugal era um país que vivia um clima de alguma instabilidade, em que o “novo-Rei” teria de ser o garante da estabilidade, o restabelecimento da independência e o factor emergente para a consolidação de um novo regime na Nação agora restaurada.
Na verdade, embora a Coroação de Nossa Senhora da Conceição, como padroeira e rainha de Portugal, em 25 de Março de 1646, em Lisboa, fosse por parte do poder uma procura para confirmar e dar-lhe legitimidade, importa ressalvar que existe aqui uma expressão de Fé, por parte do Rei e da parte do próprio Povo. Por isso o Rei procura que “todas as cidades, vilas e lugares de seus reinos tomassem por Padroeira a Virgem Nossa Senhora da Conceição”.[6]
Assim, em 1646, a Universidade de Coimbra, jura a fidelidade ao dogma da Imaculada Conceição, bem como em 1654, a pedido de El-Rei, as Câmaras de todas as cidades portuguesas mandaram afixar nas portas das respectivas muralhas, lápides alusivas à consagração de Portugal a Nossa Senhora.[7]
A confirmação da eleição de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal, surge de Roma, pelo breve Eximia dilectissimi, de 08 de Maio de 1671.
De tal modo a Imaculada Conceição caracteriza a espiritualidade dos portugueses, que durante séculos o dia 08 de Dezembro foi celebrado como "Dia da Mãe" e João Paulo II incluiu no seu inesquecível roteiro da Visita Pastoral de 1982 dois Santuários que unem o Norte e o Sul de Portugal: Vila Viçosa no Alentejo e o Sameiro no Minho. O dia 08 de Dezembro transcende o "Dia Santo" dos Católicos e engloba indubitavelmente a comemoração da Independência de Portugal, que o dia 01 de Dezembro retoma. O feriado do dia 08 de dezembro é religioso, mas é também celebrativo da cultura, da tradição e da espiritualidade da alma e da identidade do povo português.[8]
                josé miguel martins serrão


[1] MARQUES, A. H. de Oliveira, “História de Portugal: Do Renascimento às Revoluções Liberais”, vol. II, Editorial Presença, Lisboa 1998, pág. 188
[2] MARQUES, A. H. de Oliveira, “História de Portugal: Do Renascimento às Revoluções Liberais”, vol. II, Editorial Presença, Lisboa 1998, pág. 185 e 186
[3] MARQUES, A. H. de Oliveira, “História de Portugal: Do Renascimento às Revoluções Liberais”, vol. II, Editorial Presença, Lisboa 1998, pág. 186
[4] MARQUES, A. H. de Oliveira, “História de Portugal: Do Renascimento às Revoluções Liberais”, vol. II, Editorial Presença, Lisboa 1998, pág. 188
[5] MARQUES, A. H. de Oliveira, “História de Portugal: Do Renascimento às Revoluções Liberais”, vol. II, Editorial Presença, Lisboa 1998, pág. 189
[6] VASCONCELOS, António Garcia Ribeiro de, “O Mysterio da Immaculada Conceição e a Universidade de Coimbra”, Coimbra 1904, pág. 92, in Simão Pedro Aguiã, “A Virgem Maria: Padroeira e Rainha de Portugal e de todos os povos de língua portuguesa”, Civilização Editora, Porto 1996, pág. 115
[7] AGUIÃ, Simão Pedro, “A Virgem Maria: Padroeira e Rainha de Portugal e de todos os povos de língua portuguesa”, Civilização Editora, Porto 1996, pág. 119.

[8] COUTO, Francisco e COELHO, Francisco Senra, “Fé e Cultura: A Imaculada Conceição e a História de Portugal”, in http://www.snpcultura.org/imaculada_conceicao_e_historia_portugal.html, 12/09/2012

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Hino do séc. IX para o Advento

Que o sol, os astros, a terra e os mares
Ressoem solenemente a chegada do Deus altíssimo;
Que o rico e o pobre unam seus cantos
Para celebrar o Filho do Criador supremo!


O Seu nascimento precede a estrela da manhã:
É o Salvador outrora prometido a nossos pais,
O fruto glorioso de uma Virgem,
O Filho do Deus poderoso.


É o Rei de glória
Que devia vir reinar sobre os reis,
Esmagar sob Seus pés o inimigo cruel
E curar o mundo doente.


Que também os anjos rejubilem; 
Que todos os povos estremeçam de alegria:
O Todo-Poderoso vem em humildade
Para salvar o que estava perdido. [...]


Elevem os profetas suas vozes e profetizem:
Emanuel já está próximo de nós!
Solte-se a língua dos mudos
E vós, coxos, correi ao Seu encontro (cf Is 7,14; 35,6). [...]


Todas as nações e ilhas,
Aclamai este grande triunfo.
Vinde, correi como os cervos:
Eis que chega o Redentor.


Que os olhos dos cegos,
Até aqui fechados à luz,
Aprendam então a romper as trevas da noite
Para se abrirem à verdadeira luz. [...]


Louvor, honra, poder e glória
A Deus Pai e ao Filho
Na unidade do Espírito Santo
Pelos séculos dos séculos!

in evangelhoquotidiano.org

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Da Beata Teresa de Calcutá, religiosa

Todos nós devemos consagrar tempo ao silêncio e à contemplação, especialmente se vivemos em grandes cidades como Londres e Nova Iorque, onde só há agitação. Foi por isso que eu decidi abrir a nossa primeira casa de irmãs contemplativas, cuja vocação é rezar durante a maior parte do dia, em Nova Iorque e não nos Himalaias, porque senti que são as cidades que mais precisam de silêncio e de contemplação.


Começo sempre a minha oração pelo silêncio, porque é no silêncio do coração que Deus fala. Deus é o amigo do silêncio: devemos escutar Deus, porque não são as nossas palavras que contam, mas o que Ele nos diz e o que Ele diz através de nós. A oração alimenta a alma: o que o sangue é para o corpo, é a oração para a alma. Ela aproxima-nos de Deus; dá-nos um coração purificado e limpo. Um coração puro pode ver a Deus (Mt 5,8), falar com Ele e ver o Seu amor na pessoa de cada um dos nossos irmãos. Se o vosso coração é puro, sois transparentes diante de Deus, não dissimulais nada, e Ele pode retirar do vosso coração o que quiser. 

in evangelhoquotidiano.org

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Das Homilias de Bento XVI, papa

Queridos amigos [...], temos de redescobrir a alegria do domingo cristão. Temos de redescobrir com orgulho o privilégio de poder participar na Eucaristia, que é o sacramento do mundo renovado. A ressurreição de Cristo aconteceu no primeiro dia da semana, que nas Escrituras é o dia da criação do mundo. Precisamente por isto o domingo era considerado pela comunidade cristã dos primeiros tempos como o dia em que teve início o novo mundo, aquele no qual, com a vitória de Cristo sobre a morte, começou a nova criação. Recolhendo-se em volta da mesa eucarística, a comunidade ia-se modelando como novo povo de Deus.


Santo Inácio de Antioquia qualificava os cristãos como «aqueles que alcançaram a nova esperança», e apresentava-os como pessoas «que vivem segundo o domingo (iuxta dominicam viventes)».  Nesta perspectiva o Bispo antioqueno perguntava: «Como poderemos viver sem Aquele pelo qual também os profetas esperaram?» (Epist. ad Magnesios,  9, 1-2) «Como poderemos viver sem Ele?» Sentimos ressoar nestas palavras de Santo Inácio a afirmação dos mártires de Abitene: «Não podemos viver sem o domingo (Sine dominico non possumus)». Precisamente disto brota a nossa oração: que também os cristãos de hoje reencontrem a consciência da importância decisiva da celebração dominical e saibam tirar da participação na Eucaristia o estímulo necessário para um novo compromisso no anúncio ao mundo de Cristo, «nossa paz» (Ef 2, 14). Amém!

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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Das Meditações de Santo Afonso Maria Ligório, bispo

Tenhamos em conta que, depois de tantos séculos, tantos suspiros e orações, o Messias que nem os patriarcas nem os profetas viram, o «Desejado das nações» (Ag 2,7 Vulg.), o Desejo das colinas eternas, o nosso Salvador, veio por fim: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Is 9,5). O Filho de Deus fez-Se pequenino para nos dar a Sua grandeza; deu-Se a nós, para que nos demos a Ele; veio testemunhar-nos o Seu amor, para que correspondamos com o nosso. Acolhamo-Lo com afecto, amemo-Lo, recorramos a Ele em todas as nossas necessidades. [...]


Jesus veio sob a forma de uma criança, para nos mostrar o Seu grande desejo de nos cumular de todos os Seus bens. Ora «n'Ele estão escondidos todos os tesouros» (Col 2,3); Seu Pai celeste «tudo colocou nas Suas mãos» (cf Jo 3,35; 13,3). Queremos a luz? Ele veio iluminar-nos. Queremos mais força, para resistir aos nossos inimigos? Ele veio fortificar-nos. Queremos o perdão e a salvação? Ele veio perdoar-nos e salvar-nos. Queremos, enfim, o dom supremo, o dom do amor divino? Ele veio incendiar os nossos corações. Foi sobretudo para isso que Ele Se tornou menino: quis mostrar-Se-nos num estado de tal pobreza e humildade para [...] banir todo o medo e melhor ganhar o nosso afecto. [...] Todas as crianças suscitam o afecto de quem olhe para elas; quem, pois, não amaria com extrema ternura um Deus que contempla como menino, alimentado com um pouco de leite, tremendo de frio, pobre, desprezado, desamparado, a chorar e a gemer numa manjedoura, deitado sobre a palha? Este espectáculo levou São Francisco a exclamar: «Amemos o Menino de Belém!» Vinde, almas cristãs, vinde amar um Deus feito criança, tornado pobre por vós, um Deus todo amor, descido do céu para Se nos dar inteiramente. 

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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

De Santo Ambrósio, bispo de Milão

Ouviste a voz do Verbo, a Palavra de Deus. [...] Levanta-te e prepara o fundo da tua alma pela oração. Vai de baixo para cima, esforça-te por abrir a porta do teu coração. Quando ergueres as mãos para Cristo, as tuas acções exalarão o perfume da fé. [...]


Eis como Cristo te desejou, eis como te escolheu. Se te abrires para Ele, Ele entrará; não deixará de o fazer pois prometeu-o. Abraça então Aquele que procuraste (Ct 3,4); aproxima-te d'Ele e receberás a Sua luz (Sl 33,6); demora-O, pede-Lhe que não Se vá embora tão depressa, suplica-Lhe que não Se afaste. Com efeito, a palavra de Deus corre rapidamente (Sir 43,5), não se deixa prender pela frouxidão, a preguiça não a detém. Que a tua alma, à Sua chamada, vá ao Seu encontro e persevere no caminho traçado pela Sua palavra celeste, pois Ele passa rapidamente. [...]


No caso de Ele Se ter ido embora muito depressa, não penses que Lhe desagradaste por tê-Lo chamado e Lhe teres implorado, abrindo-te a Ele: Ele permite muitas vezes que sejamos postos à prova. Quando as multidões Lhe pediam para não Se ir embora, que diz Ele nos Evangelhos? «Tenho também de anunciar a Boa Nova do Reino de Deus às outras cidades, pois para isso é que fui enviado» (Lc 4,43). Portanto, mesmo que Ele pareça ter partido, continua a procurar (cf Ct 5,6). [...] Quem procura Cristo desta maneira, quem assim implora, não é abandonado por Ele; mais, Ele vem visitá-lo com frequência, pois está connosco até ao fim do mundo (Mt 28,20). 

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